
Largo São Francisco, centro de São Paulo, sábado 18 de fevereiro. Em frente à tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, milhares de pessoas se apinhavam, trocando cotoveladas, camadas de glitter e alguns mililitros de suor, para ver Pabllo Vittar entoar seus sucessos. O cantor estava no alto do trio elétrico do bloco Pop do K7, no recém-celebrado e agitadíssimo pré-Carnaval da cidade, conhecida certa vez como túmulo do samba. Pabllo, uma drag queen de 22 anos, dá voz a um dos hits do Carnaval 2017, “Todo dia”, escrito pelo rapper negro e gay Rico Dalasam.
O refrão, Eu não espero o Carnaval chegar para ser vadia/Sou todo dia, sou todo dia, grudou na cabeça do público e virou uma espécie de hino da perdição para os dias da folia. Para muitos fãs, Pabllo desbancou a grudenta “Deu onda”, do MC G15, que despontou no final de 2016, mas perdeu o fôlego antes de entrar na avenida. Lançado há um mês, o clipe de “Todo dia” acumula mais de 3 milhões de visualizações no YouTube. Com apenas uma semana de divulgação, o disco de onde saiu a canção, Vai passar mal, entrou na lista dos três álbuns mais baixados do iTunes. Na semana passada, quase todas as faixas figuravam na lista das 50 mais tocadas do Spotify.
Pabllo nasceu Phabullo (pronuncia-se “Pablo”) Rodrigues da Silva, gêmeo de Phamela (pronuncia-se “Pâmela”), em São Luís, no Maranhão. A mãe, técnica de enfermagem, levava uma vida itinerante. Foi com as crianças para Santa Inês e Caxias, no interior do estado, depois para São Paulo e, finalmente, se fixou em Uberlândia, Minas Gerais. Pabllo nunca conheceu o pai biológico.
No colégio, os colegas faziam pilhéria de sua voz fina. Certa vez, na fila da cantina, um garoto lhe disse que precisava começar a agir como homem e, ato contínuo, virou um prato de sopa quente em seu rosto. Pabllo chorou, mas ergueu a cabeça. “Tive outros amigos que passavam pela mesma coisa, a gente tentava rir para não piorar a situação do preconceito”, afirma. Aos 15 anos, ele se assumiu gay para a família. Sua mãe disse que já sabia. “Aí foi fácil. Minha mãe me apoiava, então a opinião dos outros não valia nada.”
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A primeira vez que se “montou” (ato de se vestir como mulher) foi aos 17 anos, em Uberlândia, para divulgar a festa de uma amiga, entregando panfletos na porta de uma boate. Não tinha peruca nem salto alto. Improvisou um vestido com uma camiseta comprida, colocando um cinto para marcar as curvas. Pegou o sapato emprestado de uma amiga, comprou maquiagem fajuta na farmácia e foi. “Nossa, eu estava muito feia”, diz, revirando os olhos e cobrindo a boca com a mão. “Mas, ao mesmo tempo, estava me sentindo muito bela! Isso que importava”, diz, em meio a risadas.
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Até então, Pabllo achava que ser drag queen se limitava a “bater cabelo” nas festas – momento mais esperado do show de uma drag, em que ela roda freneticamente a cabeça em todas as direções. Os cabelos (geralmente perucas) ficam suspensos no ar, indo de um lado para o outro, batendo com outras cabeleiras igualmente exuberantes. Ao ser apresentada por um namorado ao programa RuPaul’s drag race, Pabllo descobriu outra faceta das drags. O reality show americano mostra uma competição de drag queens que desfilam para ganhar US$ 100 mil e um estoque vitalício de uma marca de maquiagem com a qual fecham um contrato. Pabllo aprendeu que poderia “performar”. “Foi uma surpresa, não conhecia esse lado da arte drag. Fiquei apaixonada! Falei: eu posso ser isso aí”, diz Pabllo. “Foi uma libertação. Quando estou estressada, me monto e externalizo coisas que não consigo falar, mas que posso transmitir por meio da maquiagem e da produção.”

O programa RuPaul’s é um sucesso nos Estados Unidos – a aguardada décima temporada estreará em março. No Brasil, é exibido pela Netflix. Por expor os dramas reais e muitas histórias de superação de seus personagens, acabou contribuindo para uma abertura mercadológica e cultural às drag queens na última década. As participantes, mesmo que não vençam a competição, tornam-se figuras públicas e fazem turnês ao redor do mundo.
“O RuPaul’s tem servido como uma plataforma para a divulgação de drags e de seus produtos comerciais”, afirma Joseylson Fagner dos Santos, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e estudioso das relações de gênero, culturas e políticas da sexualidade e tecnologias digitais na comunicação. “Para gerações mais recentes, o programa é uma descoberta das drag queens, não pela sua existência, mas pela multiplicidade de estilos, visuais, identidades e histórias.” O programa também ajudou a criar um diálogo contagiante com o público heterossexual que rende memes na internet e até músicas para a balada, como a canção-tema dos desfiles da sexta temporada, “Sissy that walk”.
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Pabllo começou a fazer barulho em 2015, quando lançou, em parceria com o produtor musical Rodrigo Gorky, do grupo Bonde do Rolê, uma versão em português de “Lean on”, um sucesso das baladas eletrônicas assinado pelo grupo Major Lazer. No mesmo ano, o clipe de “Open bar”, gravado na piscina da casa de um amigo, teve mais de 1 milhão de visualizações no YouTube em menos de quatro meses. O sucesso a levou a gravar versões de músicas de artistas como Beyoncé e Nick Minaj e a sair em uma turnê pelo Brasil, que só não passou por Roraima e Acre. A exposição foi tamanha que rendeu um convite para substituir Léo Jaime na banda do programa Amor & sexo, da Rede Globo, em 2016 – convite que foi renovado para a temporada atual.
“A gente deu um passo muito importante. Tem uma drag cantando no horário nobre da TV. Isso é um ato político”, afirma Pabllo, incorporando o discurso do movimento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis) de que é preciso ocupar os espaços públicos para ganhar visibilidade. “A drag tem a vantagem de ser vista e entendida como um artista”, afirma Avelar Amorim Lima, professor de antropologia da Universidade Federal do Piauí.
Por ser considerada uma forma de trabalho de homens de feminilidade extremada, a drag é mais facilmente aceita que travestis e transexuais. Por isso mesmo, nomes como Pabllo têm conquistado cada vez mais fãs. Ela acumula 209 mil seguidores no Instagram, 197 mil curtidas no Facebook e mais de 45 mil seguidores no Twitter – e a cada dia ela arrebata cerca de 1.000 fãs.
Apesar do sucesso, Pabllo sabe que sua figura desperta ainda muita resistência em vários segmentos da sociedade. Por isso, diz que está também fazendo política, a seu modo, nessa folia do Carnaval. Entre confetes e serpentinas, ela grita que não é preciso curtir e ser feliz apenas nos dias em que o calendário permite. Aos gritos, seus fãs repetem que serão “vadias todos os dias”. “Ser vadia é correr atrás dos seus direitos, ser quem você é, vestir a roupa que quiser, amar e manter relações com o sexo que você desejar”, afirma Pabllo.
De algum modo, Pabllo pode cantar vitória. Sua ascensão ao hit parade é um sinal de uma mudança cultural. Antigamente, os blocos e bailes de Carnaval avançavam no compasso de marchinhas como as tradicionais “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão”, que ironizam gays e lésbiscas. Em 2017, essas marchinhas foram proscritas de alguns blocos por ser consideradas politicamente incorretas. Já Pabllo sobe nos trios elétricos e arrasta multidões pelas ruas para dizer que há espaço para Zezé deixar seu cabelo crescer e que Maria pode ser o que quiser – toda noite e todo dia.