Janeiro se encerrou com uma bela alta de 5% no Ibovespa. Para chegar ao ponto em que estávamos antes da sequência de quedas, em agosto do ano passado, ainda há muito trabalho pela frente: o índice precisa subir quase 9%.
A queda de 5,54% do dólar também alimenta o otimismo. Como nosso consumo é gravemente afetado por preços dolarizados (do trigo do pão à gasolina do caminhão), ver a divisa americana na cotação de novembro do ano passado cria expectativas em relação ao controle de preços. Mas lembre-se que a cotação de novembro era considerada alta por 10 entre 10 economistas.
A economia estava tão carregada de ruídos e pessimismo, que o refresco de janeiro veio quase pela lei da física, se subiu, tem que descer.
Analistas passam seus dias tentando explicar a realidade, mas a verdade é que, no mercado, assim como na natureza, os ventos não mudam por um único fator. O desemprego em taxas mínimas e o crescimento em bom ritmo no Brasil obviamente são pontos de alívio. Mas eles não foram uma novidade do mês de janeiro para levarem todos os créditos pela bonança.
A realidade do governo Donald Trump nos Estados Unidos, menos combativo na economia do que sugeria sua campanha, também precisa constar do relatório de sinais a serem observados.
Mas a última semana deixa claro que o governo Lula 3 começou a fazer parte do dever de casa atrasado na sua comunicação com o mercado. Após meses mordendo, o petista começou a assoprar. O roteiro vai a seguir:
Na quarta-feira (30), o Comitê de Política Monetária (Copom), sob nova liderança de Gabriel Galípolo, elevou os juros em 1 ponto percentual, como previsto. Em vez de esbravejar contra a decisão, como vinha fazendo, Lula foi a público no dia seguinte, dizer que a medida foi necessária e fez mea culpa em relação aos juros, ao dizer que Galípolo deverá trabalhar para baixar a Selic "no tempo em que a política permitir".
No mesmo dia, disse tudo o que os investidores queriam ouvir em relação à gigante Vale, que representa 11,27% do Ibovespa. Lula afirmou que o governo vai criar novos projetos com a mineradora e ajudá-la a produzir mais.
Na sexta-feira (31), a Petrobras (cujas ações representam 12,7% do Ibovespa) aumentou o preço do diesel. Para completar o "hat trick" de agrados, em vez de dar declarações populistas sobre como isso seria um fardo, o presidente petista decidiu reafirmar a autonomia da companhia. E se comprometeu a conversar com caminhoneiros, caso haja paralisação.
Como bônus, o presidente foi a público se vangloriar de um "acordo com os bancos" para lançar um novo programa de crédito, com ampliação do consignado privado.
Como a economia é política e vice-versa, quem achar que a rodada de acenos positivos ao mercado é coincidência deveria reavaliar sua capacidade de pensamento crítico. No dia 9 de janeiro, o presidente demitiu Paulo Pimenta da Secretaria de Comunicação Social e nomeou o publicitário Sidônio Palmeira para o cargo.
As mudanças na forma de se comunicar estão óbvias e dão sinais positivos na economia. A comunicação, entretanto, é apenas a parte superficial do problema. Com sua melhoria, voltamos a patamares "menos piores", mas longe dos topos onde já estivemos.
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