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Mina 'à la Carajás' de concorrente da Vale não deve afetar preço de minério de ferro em 2025

Complexo minerário da Rio Tinto na Guiné com mineral de altíssima qualidade iniciará operações neste ano

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São Paulo

O minério de ferro deve permanecer estável em 2025, mantendo uma faixa de preço próximo dos US$ 100 (R$ 606) por tonelada, ainda bem distante dos picos pós-pandemia, quando a commodity chegou a ser vendida por mais de US$ 150/t. O preço baixo fez a Vale perder mais de R$ 100 bilhões em valor de mercado no ano passado.

Neste ano, analistas do mercado financeiro observam a entrada em operação da mina Simandou, da gigante Rio Tinto na Guiné. Tudo indica que o complexo abriga reservas de minério de ferro de altíssimo teor, semelhante ao extraído pela Vale no Pará.

Complexo minerário S11D, da Vale, em Canaã dos Carajás
Complexo minerário S11D, da Vale, em Canaã dos Carajás - Felipe Borges/Folhapress

A previsão, porém, é de que a mineradora anglo-australiana comece a vender o minério extraído na Guiné a partir do ano que vem. A consultoria Wood Mackenzie projeta uma escala gradual na produção do complexo, saindo de 20 milhões de toneladas em 2026 para cerca de 110 milhões a partir de 2030.

Em comparação, a Vale extraiu, em 2023, 173 milhões de toneladas de ferro em todos os seus complexos minerários no sudeste do Pará. O minério extraído nessa região tem teor próximo de 66%, acima do minério mais vendido no mercado, de 62%.

Até então, apenas a Vale tinha condições de extrair, em larga escala, minério com esse teor –essencial para a fabricação de aço mais limpo–, mas a entrada em operação de Simandou tende a alterar o mercado, principalmente se o apetite pela descarbonização crescer nos próximos anos.

"Precisamos ver se haverá esse deslocamento em favor do minério de alta concentração. Em um cenário em que a transição energética esteja realmente acontecendo, a gente tenderia a ver esse movimento, mas o que a gente está vendo para esse ano é o oposto," afirma Yasmin Riveli, consultora sênior da Tendências.

De qualquer forma, o mercado espera um crescimento mínimo para o fornecimento global de minério de ferro em 2025. O Santander, por exemplo, aponta que os grandes produtores, incluindo Vale, Rio Tinto e BHP, previram uma produção estável para este ano. Até porque a demanda tende a permanecer estável.

Quase toda a produção de minério de ferro global é adquirida por siderúrgicas para a fabricação de aço. Devido às taxas de crescimento de sua economia, a China é hoje o maior fabricante de aço no mundo, representando mais de metade da produção global e 60% da demanda por minério de ferro. Assim, o comportamento das siderúrgicas chinesas ditam as expectativas para o mercado de minério de ferro.

Como cerca de 35% da demanda interna de aço da China vem do setor imobiliário, em crise há ao menos três anos, a previsão é que as siderúrgicas chinesas sigam produzindo menos aço neste ano. Em 2024, a produção de aço bruto da China caiu 1,7% em relação ao ano anterior, somando 1 bilhão de toneladas

O BTG estimou, no início de janeiro, que o consumo interno de aço na China caiu para 900 milhões no ano passado –em 2020, eram 1,05 bilhão. O banco aponta que para restaurar uma indústria mais saudável, a capacidade de produção de aço da China precisa ser reduzida em cerca de 20%. Enquanto isso, o excesso de produção é exportado, enchendo os mercados estrangeiros de aço chinês, como tem acontecido no Brasil.

"A demanda por minério de ferro é igual à produção de aço, mas a produção de aço é diferente da demanda por aço, porque um país pode decidir produzir mais do que ele demanda. A gente vê essa estratégia claramente nas últimas décadas na Rússia, China, Brasil, Japão e Coreia do Sul" explica Yuri Pereira, responsável pela cobertura de mineração, papel e celulose do grupo de pesquisa do Santander.

"Esse comportamento acontece, porque as plantas siderúrgicas em geral são muito grandes e existe um incentivo para produzir aço ao máximo para diluir custo fixo, manter empregos e ajudar no PIB", acrescenta.

O Santander, aliás, é uma das poucas instituições financeiras e consultorias a projetar um preço do minério de ferro acima dos US$ 100 por tonelada em 2025. O banco prevê um preço médio de US$115/t, enquanto o BTG cogita US$ 95/t, com riscos de queda. A diferença se dá pelo grau de otimismo com a economia chinesa.

Já a Tendências estima uma faixa entre US$ 97/t e US$ 100,5/t, e a Wood Mackenzie uma média de US$ 99/t, com oscilações positivas nos dois primeiros trimestres e negativas no final do ano. Em comparação, o minério de ferro fechou 2024 sendo vendido por US$ 100/t.

"Se o minério de ferro ficar de uma maneira persistente na faixa até US$ 90, 150 milhões de toneladas serão deslocados do mercado, o que é quase a produção de Simandou", diz Artur Bontempo, analista de minério de ferro e aço na Wood Mackenzie. Isso aconteceria devido ao custo de produção de algumas minas, principalmente na China. "Se o preço permanecer mais baixo entre seis e 18 meses, aquelas mineradoras que estavam resistindo tendem a perder o fôlego", acrescenta.

Para o um cenário de longo prazo, o mercado enxerga a Índia como um motor da demanda mundial de minério de ferro. Com planos crescentes de urbanização, o país tem a intenção de expandir sua produção de aço bruto para 255 milhões de toneladas até 2030 –em 2023, foram 140 milhões.

"A Índia é só 36% urbanizada, e tem um pipeline robusto de crescimento; eles querem aumentar a infraestrutura, melhorar a moradia e crescer o setor automotivo, então eles não podem depender apenas do aço chinês", diz Yuri Pereira, do Santander.

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