O minério de ferro deve permanecer estável em 2025, mantendo uma faixa de preço próximo dos US$ 100 (R$ 606) por tonelada, ainda bem distante dos picos pós-pandemia, quando a commodity chegou a ser vendida por mais de US$ 150/t. O preço baixo fez a Vale perder mais de R$ 100 bilhões em valor de mercado no ano passado.
Neste ano, analistas do mercado financeiro observam a entrada em operação da mina Simandou, da gigante Rio Tinto na Guiné. Tudo indica que o complexo abriga reservas de minério de ferro de altíssimo teor, semelhante ao extraído pela Vale no Pará.
A previsão, porém, é de que a mineradora anglo-australiana comece a vender o minério extraído na Guiné a partir do ano que vem. A consultoria Wood Mackenzie projeta uma escala gradual na produção do complexo, saindo de 20 milhões de toneladas em 2026 para cerca de 110 milhões a partir de 2030.
Em comparação, a Vale extraiu, em 2023, 173 milhões de toneladas de ferro em todos os seus complexos minerários no sudeste do Pará. O minério extraído nessa região tem teor próximo de 66%, acima do minério mais vendido no mercado, de 62%.
Até então, apenas a Vale tinha condições de extrair, em larga escala, minério com esse teor –essencial para a fabricação de aço mais limpo–, mas a entrada em operação de Simandou tende a alterar o mercado, principalmente se o apetite pela descarbonização crescer nos próximos anos.
"Precisamos ver se haverá esse deslocamento em favor do minério de alta concentração. Em um cenário em que a transição energética esteja realmente acontecendo, a gente tenderia a ver esse movimento, mas o que a gente está vendo para esse ano é o oposto," afirma Yasmin Riveli, consultora sênior da Tendências.
De qualquer forma, o mercado espera um crescimento mínimo para o fornecimento global de minério de ferro em 2025. O Santander, por exemplo, aponta que os grandes produtores, incluindo Vale, Rio Tinto e BHP, previram uma produção estável para este ano. Até porque a demanda tende a permanecer estável.
Quase toda a produção de minério de ferro global é adquirida por siderúrgicas para a fabricação de aço. Devido às taxas de crescimento de sua economia, a China é hoje o maior fabricante de aço no mundo, representando mais de metade da produção global e 60% da demanda por minério de ferro. Assim, o comportamento das siderúrgicas chinesas ditam as expectativas para o mercado de minério de ferro.
Como cerca de 35% da demanda interna de aço da China vem do setor imobiliário, em crise há ao menos três anos, a previsão é que as siderúrgicas chinesas sigam produzindo menos aço neste ano. Em 2024, a produção de aço bruto da China caiu 1,7% em relação ao ano anterior, somando 1 bilhão de toneladas
O BTG estimou, no início de janeiro, que o consumo interno de aço na China caiu para 900 milhões no ano passado –em 2020, eram 1,05 bilhão. O banco aponta que para restaurar uma indústria mais saudável, a capacidade de produção de aço da China precisa ser reduzida em cerca de 20%. Enquanto isso, o excesso de produção é exportado, enchendo os mercados estrangeiros de aço chinês, como tem acontecido no Brasil.
"A demanda por minério de ferro é igual à produção de aço, mas a produção de aço é diferente da demanda por aço, porque um país pode decidir produzir mais do que ele demanda. A gente vê essa estratégia claramente nas últimas décadas na Rússia, China, Brasil, Japão e Coreia do Sul" explica Yuri Pereira, responsável pela cobertura de mineração, papel e celulose do grupo de pesquisa do Santander.
"Esse comportamento acontece, porque as plantas siderúrgicas em geral são muito grandes e existe um incentivo para produzir aço ao máximo para diluir custo fixo, manter empregos e ajudar no PIB", acrescenta.
O Santander, aliás, é uma das poucas instituições financeiras e consultorias a projetar um preço do minério de ferro acima dos US$ 100 por tonelada em 2025. O banco prevê um preço médio de US$115/t, enquanto o BTG cogita US$ 95/t, com riscos de queda. A diferença se dá pelo grau de otimismo com a economia chinesa.
Já a Tendências estima uma faixa entre US$ 97/t e US$ 100,5/t, e a Wood Mackenzie uma média de US$ 99/t, com oscilações positivas nos dois primeiros trimestres e negativas no final do ano. Em comparação, o minério de ferro fechou 2024 sendo vendido por US$ 100/t.
"Se o minério de ferro ficar de uma maneira persistente na faixa até US$ 90, 150 milhões de toneladas serão deslocados do mercado, o que é quase a produção de Simandou", diz Artur Bontempo, analista de minério de ferro e aço na Wood Mackenzie. Isso aconteceria devido ao custo de produção de algumas minas, principalmente na China. "Se o preço permanecer mais baixo entre seis e 18 meses, aquelas mineradoras que estavam resistindo tendem a perder o fôlego", acrescenta.
Para o um cenário de longo prazo, o mercado enxerga a Índia como um motor da demanda mundial de minério de ferro. Com planos crescentes de urbanização, o país tem a intenção de expandir sua produção de aço bruto para 255 milhões de toneladas até 2030 –em 2023, foram 140 milhões.
"A Índia é só 36% urbanizada, e tem um pipeline robusto de crescimento; eles querem aumentar a infraestrutura, melhorar a moradia e crescer o setor automotivo, então eles não podem depender apenas do aço chinês", diz Yuri Pereira, do Santander.
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