Descrição de chapéu
Sofia Azevedo

O que a deep web brasileira diz sobre nós?

Sentimento de exclusão social desperta ódio perverso na internet, geralmente direcionado às mulheres, transformadas em culpadas de angústias masculinas

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Sofia Azevedo

Historiadora, atua na área de monitoramento, "social listening" (pesquisas em redes sociais) e investigação digital

A deep web não é apenas um espaço oculto da internet; é um reflexo desconcertante das nossas próprias dinâmicas sociais. Depois de dois meses imersa nesse universo, descobri como o anonimato e a exclusão alimentam uma cultura de ódio, especialmente contra as mulheres.

Se você, assim como eu, usa a internet para entrar nas redes sociais, ler alguma notícia ou fazer pesquisas no Google, muito provavelmente só navegou por 5% desse universo, conhecido como surface web (ou web aberta). A deep web, por sua vez, representa 95% da internet. Mesmo assim, ainda hoje sabemos muito pouco sobre esses 95%. Por isso, quis entender o que se passa por lá.

Ilustração com uma figura no centro de cor roxa com garras enormes. Do lado esquerdo uma mulher de cabelo azul, blusa vermelha e pele rosa, oprimida sob as garras. Do laado direito um grupo de mulheres caídas com roupas coloridas em cima de poças sangue em tons vermelhos.
Ilustração de Claudiz Liz

Claro, não esquadrinhei os 95% de cabo a rabo, circulei pelos "chans" —abreviação de "chats anônimos"—, que são como fóruns de discussão localizados na deep web. Para circular nesses espaços, existem regras específicas que ficam "pregadas" na entrada do site. Dentre elas, algumas me chamaram a atenção. Regra número 1: erros ortográficos são estritamente proibidos. Regra número 2: mulheres são estritamente proibidas, apesar de não terem meios de identificá-las. Os usuários que cometerem algum deslize gramatical ou cuja escrita "transmita feminilidade" são banidos do servidor.

A estrutura desses espaços também chama atenção: ela é feita de "boards" —salas dedicadas à discussão de temas específicos: "literatura", "anime" e "culinária" são alguns dos exemplos mais amigáveis. Regra número 3: é estritamente proibido misturar os temas, ou seja, falar de política no "board" de culinária e vice-versa.

O problema dessa lógica é seu efeito sobre as mulheres, que também passam a ser categorizadas: no board "pornografia", a mulher é tratada como objeto de gozo, "puta" e, por isso, mais merecedora de sofrer violências: 72% das discussões nesse "board" pedem vazamento de nudes. Já no board "mulheres", estas são vistas a partir de uma régua moral: 46% das conversas criticam suas atitudes. No board "relacionamento", a violência é mais sutil: idealizam as mulheres para namorar, chamadas de "pitangas", em oposição àquelas para transar, chamadas de "depósito" (referência a depósito de esperma). Na cabeça dos usuários dos "chans", toda figura feminina pertence a uma categoria específica, podendo ser remanejada dependendo de sua aparência, atitude e, o mais importante, sua "coerência".

A (falta de) coerência feminina é o principal gatilho de ataque. Um exemplo é o caso de uma mulher que costumava vender fotos nuas nas redes, mas que, de repente, passou a compartilhar imagens frequentando cultos evangélicos, afirmando ter mudado de vida. Sua virada religiosa não passou despercebida, e os usuários a interpretaram como uma transgressão imperdoável.

Como punição, enviaram fotos do seu passado para amigos, namorado, familiares e colegas de trabalho, "desmascarando-a". A suposta incoerência da vítima aumenta o ódio dos usuários, que, indignados pela traição da imagem que eles mesmos construíram, buscam se vingar.

Em um ambiente em que nada é esquecido, perde-se a liberdade de se reinventar. E os frequentadores dos "chans" —e talvez não só eles— reagem indômita e violentamente, exigindo a coerência perdida.

Adicionando camadas de complexidade à questão, visitei outros "boards", onde encontrei desabafos sobre dificuldade de interagir socialmente e, sobretudo, se relacionar com mulheres. Muitos também falam da frustração de se verem desempregados, consolidando outra vítima: a "puta do RH". Sobre ela também recai a raiva dos usuários, indicando parte da natureza do problema: o desemprego. Muitos acreditam que suas frustrações profissionais se devem à presença, cada vez maior, de mulheres no mercado de trabalho.

Em meio ao sofrimento, encontram nos "chans" pessoas que ecoam as mesmas dores e, juntos, transformam as mulheres nas principais culpadas de suas angústias. Fazem desse espaço um lugar de acolhimento entre os escanteados, onde o sentimento de exclusão social desperta um ódio perverso. Os "chans", porém, não são um mundo à parte. Eles pertencem ao nosso mundo, e seus usuários são produto indissociável da sociedade em que vivemos e —infelizmente— ajudamos a construir.

* Para acessar a pesquisa completa, busque por "Misoginia e Violência contra mulheres na internet: um levantamento sobre fóruns anônimos (2023)", do Instituto Avon

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