PL tenta pressionar Câmara por anistia do 8/1 com obstrução, e Motta resiste

Presidente da Casa não quer ver PL da reciprocidade prejudicado e faz discurso com indiretas para bolsonaristas

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Brasília

O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, tenta pressionar o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), a pautar a urgência do projeto de lei que propõe anistia aos presos do 8 de janeiro.

Para isso, a sua bancada de 92 parlamentares deu início a uma obstrução generalizada no plenário e nas comissões. Ela consiste na utilização de manobras regimentais para atrasar ou evitar deliberações no Congresso.

"Enquanto ele [Motta] não decide, o PL vai estar em obstrução total", disse o líder do partido, Sóstenes Cavalcante (RJ).

A imagem mostra dois homens em trajes formais, um deles com cabelo curto e liso, usando um terno cinza claro e gravata escura, enquanto o outro tem cabeça calva, usa um terno cinza e gravata vermelha. Ao fundo, há outras pessoas e uma fonte de luz intensa, sugerindo um ambiente de evento ou reunião.
O ministro Alexandre de Moraes participa, ao lado de Hugo Motta, de evento de lançamento de livro no Senado, nesta terça-feira (1º) - Pedro Ladeira/Folhapress

A medida paralisou os colegiados nesta terça-feira (1º), mas não impediu a aprovação de uma medida provisória do governo Lula (PT), que abre crédito extraordinário de R$ 938 milhões a ministérios.

No plenário, o texto foi aprovado por 317 votos a favor e 92 contra, além de duas abstenções. Nos discursos, deputados de oposição pediam "anistia já".

O PL diz que só abrirá mão da obstrução quando houver sinalização do presidente da Casa sobre pautar o projeto de lei da anistia. Motta, por sua vez, tem resistido a levá-lo a plenário, argumentando que não é bom momento.

Segundo aliados, o presidente da Casa se irritou com o movimento de obstrução do PL. De acordo com eles, o gesto é desproporcional. Motta disse ao partido de Bolsonaro que consultará os demais líderes sobre a proposta.

Um dos riscos da obstrução, que é acompanhada pelo Novo também, é prejudicar a aprovação do projeto de lei que impõe a reciprocidade de regras ambiental e comercial nas relações do Brasil com outros países.

O presidente da Casa iniciou a sessão na terça com um discurso com recados para o PL, mencionando a importância do projeto. Após a fala, abriu a ordem do dia.

"Este episódio entre os EUA e o Brasil deve nos ensinar definitivamente que, nas horas mais importantes, não existe Brasil de esquerda com Brasil de direita", disse.

"Ninguém é dono do povo, ninguém pode falar pelo povo. Não é hora de seguirmos ninguém, mas de agirmos com desprendimento político, sem qualquer tipo de mesquinhez e agir com altivez, mas sem falsos heroísmos", completou.

A proposta, que é da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), foi aprovada no Senado a jato, com apoio de governistas —um dia antes de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar um tarifaço que pode atingir uma série de produtos brasileiros.

O presidente da FPA, Pedro Lupion (PP-PR), disse que vai conversar com o líder do PL para tentar abrir uma exceção para o projeto. "Acredito e espero que não [façam obstrução]. Podemos abrir exceção para [o projeto da] reciprocidade, até porque boa parte da FPA, inclusive, é a favor da anistia", disse.

Deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), da bancada evangélica - Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

O líder da oposição, Zucco (PL-RS), por sua vez, diz que o PL continuará em obstrução, abrindo exceção apenas para pautas relacionadas ao 8 de janeiro.

A Comissão de Segurança, por exemplo, presidida por um parlamentar do partido, aprovou só um requerimento para a criação de uma subcomissão especial para fiscalizar denúncias de violações de direitos humanos a presos pelos atos golpistas.

Questionado se não é ruim para o partido obstruir um projeto que tem apoio de ruralistas e do governo, Zucco disse que pega mal "continuarem presas mulheres condenada a 17 anos, enquanto tem estuprador solto".

Há ainda uma discussão sobre o PL ter ou não o apoio necessário para o requerimento de urgência da anistia. Críticos à proposta dizem que não há, mas dirigentes de partidos do centrão veem respaldo à medida. Na prática, ainda não foi apresentado requerimento com as assinaturas.

Outro tema que Motta teme ser prejudicado pela obstrução do PL é a votação das emendas de comissão, parte do acordo com o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), para liberar o pagamento das transferências. O detalhamento deve ser aprovado nos colegiados nesta semana.

Lideranças buscam um meio-termo entre o que demanda o PL e o que Motta está disposto a ceder neste momento. Ainda que haja assinaturas necessárias para um requerimento de urgência, cabe a ele a prerrogativa de montar a pauta do plenário.

Uma dessas possibilidades poderia ser a rápida análise do pedido de suspensão da ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), enquanto durar o mandato, como gesto aos bolsonaristas. Ramagem, assim como Bolsonaro, é réu no STF por integrar trama golpista em 2022.

O partido cita um dispositivo da Constituição que prevê essa possibilidade quando episódios ocorrem após a diplomação —como foi o caso de 8 de janeiro. O pedido deve ser analisado pela Câmara em 45 dias.

A decisão de seguir com obstrução total até que Motta se decida sobre a proposta surgiu após café da manhã dos deputados na casa de Zucco com o próprio Bolsonaro.

Segundo Sóstenes, não satisfaz ao PL a possibilidade de o projeto ir para uma comissão especial, o que representaria uma tramitação mais lenta. Quanto ao texto, ele afirmou que pode haver mudanças no plenário e que o ex-presidente Bolsonaro não é o foco do projeto.

"Todo mundo já sabe que um texto, nesta Casa, entra de uma forma, ele passa no plenário, tem emendas, tem adaptações, o relator pode fazer adaptações dentro do plenário", disse.

"Anistia para nós é para as pessoas que estão lá presas, pagando a pena injustamente, não tem nada a ver com o presidente Bolsonaro. (...) Em nenhum momento fala-se de presidente Bolsonaro e nós nunca vamos falar, porque não é ele o alvo dessa questão do PL da anistia. Nunca foi."

Hoje, pela forma como está o texto, o ex-presidente poderá ser beneficiado pelo projeto, que prevê anistia ampla e irrestrita a todos os envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro, desde o fim das eleições de 2022 até a promulgação da lei.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.