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Brics 2024: IA, cibersegurança e soberania digital rumo à sustentabilidade?

Momento é particularmente decisivo para costurar agendas entre as mais cruciais para o desenvolvimento do país

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Luca Belli

Professor e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio

Nesta semana, os chefes de estado do Brics se reuniram em Kazan, capital da República do Tartaristão, recebidos pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin. Pela primeira vez o grupo se encontra oficialmente na sua nova configuração expandida, que incluiu Egito, Emirados Árabes, Etiópia e Irã.

Depois da presidência russa, será a vez do Brasil que, em menos de 12 meses a partir de novembro, será também o anfitrião do G20 e da COP30. Para o governo brasileiro, essa ultramaratona diplomática é uma ocasião única de desempenhar um papel de liderança internacional.

O momento é particularmente decisivo para costurar agendas entre as mais cruciais para desenvolvimento do país: transformação digital justa, promoção da sustentabilidade e luta contra as desigualdades. É cada vez mais visível que estes assuntos são intimamente conectados.

A imagem mostra uma reunião do BRICS 2024, com um grande círculo de mesa onde estão sentados vários representantes. Ao fundo, há uma parede decorada com as cores da bandeira russa e o logotipo do BRICS, que inclui as palavras 'BRICS 24' e 'Rússia 2024'. O ambiente é formal, com várias pessoas em pé ao redor da mesa, observando a reunião.
Reunião de integrantes do Brics em Kazan, na Rússia - Hamad Al-Kaabi/AFP

A automatização por meio de inteligência artificial (IA) é um exemplo eloquente. Dependendo de como e para quem são construídos e regulados os sistemas de IA e as infraestruturas que os suportam, eles podem ser poderosos vetores de desenvolvimento e aumento de produtividade ou facilitar autoritarismo, desastres ambientais e concentração de poder.

Neste sentido, observar os desenvolvimentos que acontecem no âmbito do Brics se torna particularmente relevante para entender quais são as estratégias e as prioridades das lideranças do Sul Global e como podem impactar a elaboração de políticas nacionais e internacionais. Como revelam as pesquisas do projeto CyberBrics do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio, os trabalhos do Brics são um preditor bastante interessante das evoluções globais.

Ao longo da última década, a transformação digital começou a ocupar um lugar cada ano mais proeminente na agenda do grupo. Desde a Cúpula de 2013, que aconteceu somente algumas semanas depois das revelações de Edward Snowden, os países do bloco reafirmam seu compromisso com a cibersegurança e a soberania digital, que passaram a ser prioridades domésticas e internacionais pela maioria.

Vale a pena frisar que, para os países do Sul Global, basicamente nada mudou desde as revelações sobre os esquemas de espionagem maciça orquestrados pela NSA, que na época implicaram até a interceptação ilegal da então presidente Dilma, vários membros do governo e executivos brasileiros, entre outros.

Desde então, os membros do Brics destacam a relevância da cibersegurança e a necessidade de se definir uma estrutura regulatória universal sobre luta ao cibercrime, liderado pelas Nações Unidas. É importante frisar que, em agosto deste ano, essa visão intensamente apoiada pelo Brics ao longo de uma década se concretizou, não sem críticas e turbulências, na nova convenção sobre crime cibernético adotada por consenso pela ONU.

Esse talvez seja um dos maiores produtos da coordenação e atuação conjunta das lideranças do Brics no que diz respeito às políticas digitais, apesar das críticas que podem ser legitimamente levantadas sobre a Convenção —cujo escopo é tão amplo a ponto de poder facilitar vigilância e repressão. Porém, somente há cinco anos, pensar que o texto de uma Convenção sobre cibercrime proposto por países do Brics pudesse ser adotado pela ONU não era uma opção tomada a sério pela enorme maioria dos observadores.

Como muda o mundo. A corrida tecnológica para ser líder em IA e a crescente percepção de nossa falta de soberania digital, no meio de uma digitalização acelerada à qual a pandemia nos obrigou e num ambiente internacional extremamente tenso, de fato turbinaram o avanço do objetivo pelo qual o Brics foi criado.

Desde sua criação, o Brics almeja a construção de um uma ordem multipolar no qual as lideranças do Sul Global não tenham um papel exclusivamente passivo, mas se tornem atores ativos da governança e o desenvolvimento global.

Ao analisar os acontecimentos mais recentes parece que, para o bem ou para o mal, esta ordem multipolar esteja sendo estabelecida a pleno vapor.

Neste contexto, é extremamente relevante que ao considerar o papel da digitalização e da IA o grupo acabe de se comprometer pela primeira vez "à concepção de um framework global para a governança de dados, incluindo fluxos de dados transfronteiriços, para garantir a interoperabilidade de marcos regulatórios de dados a todos os níveis."

As políticas digitais dos países do Brics já exercem uma relevante influencia internacional e o grupo tem a capacidade de promover a interoperabilidade legislativa em termos de governança de dados, como destaca a pesquisa do CyberBrics. Além disso, o Brics já criou um grupo de estudo sobre IA.

Em 2017, em tempos diplomaticamente muito mais descontraídos que hoje parecem uma época muito distante, o próprio Vladimir Putin comentava que "quem se tornar o líder [em IA] se tornará o governante do mundo." O tom bastante assustador do aviso russo não foi desmentido pelas evoluções tecnológicas, políticas e econômicas dos últimos anos.

Quando se fala em IA e, mais geralmente, na transformação digital que a adoção da IA possibilita, é de importância extrema ter um entendimento claro sobre o que queremos, quais são os nossos interesses e como alcançá-los de maneira efetiva. Não ter clareza e visão estratégica sobre estes assuntos é uma falha capital.

Assim, o Brasil deveria usar os próximos meses como uma oportunidade para testar e afinar sua estratégia. O país tem uma ocasião única para promover uma visão positiva de soberania digital, que promova o desenvolvimento e recuse o autoritarismo, priorizando uma transformação digital cibersegura e sustentável.

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